18/09/2009

Eduardo Alves da Costa

A POESIA COMO TESTEMUNHO
Eduardo Alves da Costa é um poeta da palavra, generoso, solidário, atento ao mundo

Álvaro Alves de Faria • São Paulo – SP

No caminho com Maiakóvski
Eduardo Alves da Costa
Geração Editorial
288 págs.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite, eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Esse trecho do poema No caminho, com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa, percorreu o país e tornou-se conhecido até mesmo internacionalmente, atribuído ao poeta russo. Tudo indica que o equívoco está agora devidamente esclarecido. O poema pertence a Alves da Costa, um dos mais significativos poetas da chamada Geração 60 de poetas de São Paulo. Muitos poemas dele tornaram-se famosos a partir dos anos 60, em São Paulo, uma cidade que ainda não era tão violenta. Era até romântica.

Outro poema marcante do livro O tocador de atabaque, de 1969, era e ainda é O poeta Eduardo leva seu cão raivoso a passear: "Eduardo, louco em férias, poeta disfarçado em burocrata, levanta-se todos os dias com péssimo humor, para ser devorado pelo relógio de ponto". Outro trecho: "Acredita nos homens, entregaria sua vida por eles, porque é um tolo, um humanista impenitente, um amante das grandes causas, um aprendiz de santo, um sofredor pela miséria alheia, uma vítima do melodramático, um desprotegido contra a chantagem emocional, com uma farpa da cruz atravessada no coração".

Esse livro revelava tudo que havia por vir e Eduardo Alves da Costa traçava nos primeiros poemas o perfil de um poeta atento ao mundo e à própria poesia que ainda, naquele tempo, não sofria as agressões que hoje sofre por alguns inconseqüentes com espaço garantido nos suplementos culturais. Esse O tocador de atabaques começa com um poema dos mais belos escrito em língua portuguesa: "O amigo não cabe num abraço/ nem a família/ no parco espaço da casa;/ não cabe a nação em seu berço de cal/ e muito menos os deuses/ numa urna de cristal" (Rilkeanas). A exemplo de outros poetas da Geração 60, Eduardo Alves da Costa reuniu toda sua poesia no livro No caminho com Maiakóvski, um documento de uma poesia que nunca fez concessão alguma a nada.

Estão aqui O tocador de atabaque (1962-1969), Salamargo (1970-1982), Poemas quase taoístas (1984-1985) e O canibal vegetariano (1986-1999). Nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde criança. ("Perdi o mar, talvez para sempre"). No final de seu livro, Eduardo escreve: "Escrevi pouco, porque desejo, em primeiro lugar, viver. Acho a vida um mistério fascinante e sempre me envolvi em suas tramas. Não estou interessado na fama, na carreira literária e outras baboseiras que levam os incautos a lutar com unhas e dentes por um lugar ao Sol. Acredito no "wu wei" taoísta, o "não fazer" ou ação que não se preocupa com resultados. Isso me tem causado problemas, porque muita gente pensa que a literatura é uma espécie de ‘Fórmula 1'. Vejo escritores passando à frente e desejo, sinceramente, que cheguem ao fim da corrida e aos louros sem fundir o motor".

Eduardo Alves da Costa é também autor de romances e peças de teatro. Em O canibal vegetariano, Eduardo escreve sobre poesia: "Creio que se possa estabelecer um paralelo entre Poesia e Alquimia". Recorrendo a Frater Albertus, um alquimista contemporâneo, afirma que "a Poesia é o aumento das vibrações". Explica: "A Matéria-Prima, cujas vibrações são intensificadas por meio do lavor poético, é a linguagem. E assim como na Alquimia se recomenda que todas as operações, por mais complexas que sejam, se realizem sobre um único elemento, sem qualquer acréscimo, assim também na Poesia nada se deve acrescentar à linguagem. Não se trata, porém, de privilegiar a forma em detrimento do conteúdo e sim de conduzir as operações de maneira que, uma vez encerrada a linguagem no ovo filosofal, ou seja, no âmbito do poema, o referido aumento das vibrações torne essa linguagem ‘carregada de significado até o máximo grau possível', como recomenda Ezra Pound".

O poema Tentativa para salvar a poesia, de O tocador de atabaque, parece que foi escrito hoje, tal sua ironia e atualidade em relação às loucuras e equívocos cometidos por alguns facínoras: "A poesia agoniza e eu choro/ com medo de perder a vaga/ de poeta./ Os mais velhos recomendam/ cautela com a emoção,/ repouso,/ caldo de galinha e linguagem à antiga./ Os fatalistas lamentam o cinema/ e chamam ao nosso século/ o das artes visuais". Alves da Costa sempre se manteve distante dessa corriola que faz e desfaz na literatura brasileira, incluindo o jornalismo. Primeiro, para não adoecer de tédio. Segundo, porque não é de barganhar favores.

Eduardo é um dos poetas que, no início dos anos 60 - quase todos com 20 anos - reuniam-se em torno do editor Massao Ohno, que em 1961 juntou todos na Antologia dos Novíssimos. Um poeta da palavra, generoso, solidário, atento ao mundo. Um poeta que escreveu poemas para seu tempo, sem nunca ter sido panfletário, embora nada se tenha contra a poesia panfletária. Um poeta que parece sempre estar a dizer: "Às vezes, quando/ estou triste e há silêncio/ nos corredores e nas veias,/ vem-me um desejo de voltar/ a Portugal. Nunca lá estive,/ é certo, como também/ é certo meu coração, em dias tais,/ ser um deserto" (Salamargo - Três poemas portugueses). Deixa-se estar nos seus quadros e percorre neles os poemas que pinta em telas enormes. Um poeta da poesia como testemunho de vida, palavra rara na angústia nessa "poesia" que hoje se faz sem nenhum compromisso com nada.

Felizmente, ainda existem poetas como ele. Não são muitos. Mas existem. Estão numa trincheira quase sem saída e esperam amanhecer.

Lao Tzu

O sábio não tem uma ideia fixa;
tem consciência das necessidades dos outros.
..
Aos que são bons, trata-os com bondade.
Aos que são maus, trata-os também com
bondade,
porque a natureza do seu ser é boa.
--
É amável com os amáveis.
É também amável com os rudes,
porque a natureza do seu ser é a amabilidade.
--
É fiel aos fiéis;
é também fiel aos infiéis.
O sábio vive em harmonia com tudo sob o céu.
Vê todas as coisas como a si mesmo;
ama todos como seus filhos.
--
Todas as coisas são atraídas a ele.
Comporta-se como uma criança pequena.
( Poema de Lao-Tzu - livro Tao Te Ching )

Vinicius de Moraes

Elegia Desesperada
(O Desespero da Piedade)

Vinicius de Moraes


Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.


Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina


Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.


Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.


Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.


Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...


Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!


Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.


Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.


Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.


E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!


Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!


Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.


Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.


Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.


Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.


Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.


Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.


Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.


Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.


Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.


Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.


Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.

Eduardo Alves da Costa




“Eduardo Alves da Costa é autor de alguns dos maiores e mais belos poemas da língua portuguesa. O fragmento de um deles, No Caminho, com Maiakovski, sem dúvida o mais popular – transformado em bandeira contra a ditadura nos anos 70 – em pôster, cartões postais, estampa de camiseta da campanha Diretas Já, mensagem massificada na Internet já foi conhecido, em todo o Brasil, como o poema mais famoso e representativo de Vladimir Maiakóvski, o poeta russo. O equívoco, que durou muitos anos, é mais uma vez corrigido neste livro, que contém toda a poesia de Eduardo Alves da Costa publicada até hoje em um volume inédito, O Canibal Vegetariano. A extrema qualidade da poesia de Alves da Costa, reconhecida por toda a crítica, pode ser conferida juntamente com a íntegra do famoso poema que agora dá título à coletânea.” – Luiz Fernando Emediato.


No Caminho, com Maiakóvski

Eduardo Alves da Costa


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

17/09/2009

Damião Experiença

18/08/2009

Jojo Mayer Nerve - Prohibited Beats 2007




Jojo Mayer and Nerve - Prohibited Beats (2007)
01 Ulaan Bataar
02 Far
03 Retox
04 7even
05 Pleasure Control
06 Jabon
07 Syncopath
08 Tribute
09 Sedation Deprivation

25/03/2009

Rhonda Smith - Intellipop [2000]